domingo, 13 de fevereiro de 2011
Tributo a Roberto Campos
Publicado originalmente em 11/10/2005 08:57:00
Roberto Campos foi a grande chance desperdiçada que este país teve.
Foi o homem que nos mostrou o caminho que não seguimos e que poderia ter nos levado ao sucesso como nação.
Campos, como ministro do planejamento do governo Castelo Branco, quando os militares debatiam que modelo desenvolvimentista deviam dar ao país, defendeu vigorosamente o modelo exportador, direcionando investimentos na conquista de mercados externos e de maior participação no comércio mundial.
Venceu a facção que queria um modelo de substituição das importações, que fechou o mercado brasileiro com medidas protecionistas que corroeram completamente a competitividade internacional da nossa indústria.
Enquanto o Brasil decidia por tal rumo, a Coréia do Sul optava pelo modelo exportador.
Ninguém na época prestou atenção nos coreanos, um povo perdido em um pequeno e dividido país lá do fim do mundo, de escassos recursos e sob a ameaça constante de ser tragado pelos comunistas. Muito diferente do gigante sul americano no auge de suas pretensões de tornar-se uma grande potência, que às vésperas do milagre econômico tinha uma base industrial poderosa e em franco crescimento, apoiada pela abundância de investimento internacional.
Eram tempos em que nossa produção de automóveis batia recordes ano após ano, enquanto ninguém sequer sabia se na Coréia se fabricavam carros.
Campos não foi ouvido. Deu no que deu.
Roberto Campos também defendeu nos anos sessenta a criação de um banco central independente, bandeira levantada hoje, ironia das ironias, pelo governo do PT.
Sua posição renhida de que a moeda deveria ter um guardião, de novo, se vencedora, teria nos livrado dos dez anos de hiperinflação que destruíram a esperança deste país fechar o século XX como uma economia desenvolvida.
Cada vez que a voz da estupidez falava do trono e obtinha o apoio delirante da plebe ignara, a voz contrária e dissonante era sempre a dele, sem se importar com o impacto de tais posições em sua popularidade e não ligando a mínima para o que era o pensamento da maioria.
Quando os governos militares iniciaram a estatização da economia, com o aplauso da direita nacionalista e da esquerda estatista, Campos foi contra.
Quando criaram a reserva de mercado da informática, com o aplauso da direita nacionalista e da esquerda estatista, Campos foi contra.
Quando lançaram o Plano Cruzado, com o congelamento de preços sendo aclamado nas ruas como a decisão política brasileira mais popular em décadas, Campos foi imediatamente contra.
Não me lembro de uma única posição defendida por Roberto Campos que décadas depois não tivesse sido reconhecida como a melhor opção, referendada até por aqueles que seriam os últimos de quem se esperar tal referendo, como é o caso da política econômica do ministro Palocci, que tem por prioridade o controle do déficit público e a contenção da inflação, prioridades sempre defendidas pelo velho diplomata.
E como os brasileiros se lembram hoje de Roberto Campos?
A maioria não sabe quem foi, quem lembra associará seu nome à direita e aos militares. Alguns se lembrarão de seu apelido - Bob Fields - dado por aqueles que o viam como um agente do imperialismo ianque, idéia tão estúpida que ainda é repetida pelos estúpidos de hoje.
Resta esperar o julgamento da História, que mais cedo ou tarde dirá que Roberto Campos foi um grande brasileiro, que mostrou que este país também poderia ser grande se não tivesse no timão pilotos mais dispostos a guiar o barco para onde cantam as sereias do que para onde apontam os Ulisses.
Roberto de Oliveira Campos foi nosso Ulisses.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
A curiosa condição esquerdista, ou o erro do conservadorismo - II
Publicado originalmente em 17/01/2011 às 10:46
A esquerda brasileira conseguiu a proeza de transformar termos como "conservador" e "reacionário" em qualificativos pejorativos a priori, sem necessidade de maiores explicações.
Assim um esquerdista pode desqualificar um adversário ao designar sua posição como reacionária, ainda que esta seja simplesmente a definição de qualquer resistência ao reformismo radical que a esquerda defende.
Esses termos são sinônimos de anti-esquerdismo. Ser conservador ou reacionário consiste exatamente em objetar projetos de mudanças e reformas institucionais radicais credenciadas pela teórica moralidade superior da sociedade futura que essas reformas produzirão.
E essa é exatamente a natureza das propostas esquerdistas, a predisposição a privilegiar o conhecimento extraído da experiência futura hipotética à sabedoria real acumulada no passado. Que uma pessoa oriente sua própria vida dentro desse princípio, problema dela e de sua insanidade. Mas quando ela o aplica à sociedade como um todo e tenta obrigar todos a obedecer a sua visão, trata-se de um visionário progressista.
No mundo em geral, mas no Brasil principalmente, a noção de conservadorismo parece descrever uma atitude contrária a qualquer tipo de mudança, sendo os conservadores, portanto paladinos do status quo, embora essa seja uma premissa completamente despropositada.
Conservadores propõem mudanças, muitas vezes mais significativas que as mudanças dos progressistas, sobretudo em ambientes onde as instituições já estão profundamente corroídas pelo ativismo radical.
A diferença está no que inspira as propostas conservadoras. Ao contrário do socialista e sua credencial futurista imaginária, o conservador se inspira pelo conhecimento adquirido pela experiência real e autoridade do passado. A experiência conservadora é aquela que se produz dentro das margens de variação previstas pelas próprias instituições, ao longo do tempo. A maioria dessas experiências sendo pequenos fracassos não comprometedores a serem eliminados, mas uma pequena fração sendo pequenos sucessos a serem acumulados e compostos uns sobre os outros, permitindo o progresso real.
O conservador reconhece não compreender em detalhe como todas as instituições se entrelaçam criando a estrutura da sociedade. E que ele não precisa conhecer, para respeitá-los e assumir seu funcionamento. Ele admite a existência de uma complexidade cuja dimensão transcende a sua própria razão governando a evolução dos assuntos humanos e da moralidade, da qual ele pode obter apenas um conhecimento incompleto e imperfeito e a qual não se julga capaz de reconstruir, muito menos de criar algo novo melhor a partir do nada.
O conservadorismo sendo a atitude racional legítima, de uma razão destituída de egocentrismo megalomaníaco dos reformadores do mundo. Do reconhecimento de que no passado as pessoas não eram idiotas cegos a obviedade de uma visão futurista e que deve existir uma razão para que um plano revolucionário simplista não tenha sido posto em prática antes, ou porque não teria sucedido nas vezes em que se tentou aplicá-lo. O conservador olha para as instituições e se maravilha com o seu funcionamento ainda que este seja imperfeito. Ele não percebe instituições como superstições irracionais que persistiram graças à incompetência e ignorância das gerações passadas, mas como produtos da sofisticação e da razão daqueles que o precederam. O conservador se reconhece como mais um indivíduo membro de uma espécie humana racional como um todo e não como membro de uma casta privilegiada capaz de acessar uma visão do futuro para as massas ignóbeis. Mesmo quando é um grande homem, ainda se vê como indivíduo e entende a sua contribuição como aquela de um indivíduo visando acrescentar algo ao edifício já existente.
Em contraste, o esquerdista propõe demolir todo o edifício, provavelmente porque imagina que nunca antes na história do mundo alguém foi tão esplêndido quanto ele próprio.
Existe uma atitude entre conservadores "moderados" e centristas de acreditar que um equilíbrio dinâmico entre conservadores e progressistas é a fórmula ideal para o progresso de uma sociedade. Eu não sei se essa é a sua visão, mas com certeza não é a minha.
Na medida em que se discutam objetivos políticos de curto termo, reconhecer a realidade e a penetração do progessismo na sociedade de fato não é uma alternativa e admitir algumas concessões pode ser imperativo para sua estratégia de sobrevivência. Face à ameaça nazista, Churchill admitiu a aliança com Stalin e segundo ele próprio, se aliaria ao próprio satanás contra Hitler.
Mas não se deve perder de vista que a atitude progressista, em todas as suas formas, é uma doença moral, uma ameaça constante à civilização humana e um problema que no longo prazo não deve ser menosprezado ou ignorado.
A curiosa condição esquerdista, ou o erro do conservadorismo - I
Publicado originalmente em 16/01/2011 às 13:51
Globalismo, pacifismo, multiculturalismo, relativismo, desconstrucionismo, racialismo, gayzismo, ambientalismo, abortismo, feminismo e os bons e velhos socialismo, sindicalismo, trabalhismo e comunismo.
Conservadores sabem, ou ao menos podem imaginar com detalhismo gráfico, as conseqüências dessas idéias no mundo real, feito de pessoas de carne e osso. Exatamente por isso, existe uma tendência entre conservadores a demonizar os defensores desse tipo de idéia.
Mas essa postura é um erro. O conservador a adota por acreditar que o esquerdista está agindo de forma consequente, que ele almeja os fins que suas próprias ações procuram. O conservador, ciente de que essas ações não podem produzir nada bom, conclui daí que o globalista (ou ativista equivalente) é necessariamente mau.
Esse tem sido um dos grandes obstáculos na transmissão da mensagem conservadora. A tendência a presumir uma imoralidade de intenções baseada numa imoralidade de ações. Essa conclusão aplica-se apenas a pessoas consequentes, capazes de fundamentar seus atos num aprendizado passado. E é exatamente isso que esquerdistas não são.
Essa é uma hipótese completamente fora de propósito com os fatos e denota a incapacidade de conservadores de capturar a curiosa essência da condição esquerdista. A maior parte da esquerda não faz idéia das consequências decorrentes de suas próprias idéias e as defendem com a melhor das intenções. De tão apegados à bondade inerente de suas propostas, eles se dispõem a fazer pouco caso dos fatos contraditórios que lhes são apresentados e que demonstram inexoravelmente a desconexão completa entre suas ações e os objetivos pretendidos. Isso não é sintomático de uma personalidade essencialmente má, mas de uma psicologia demente.
Eles são acometidos por um delírio megalomaníaco altruísta e dessa condição mentalmente debilitada conduzem suas incríveis atrocidades. Embora seu altruismo seja abstrato, uma vez que esquerdistas não tendem a engajar-se em atos práticos de caridade na mesma intensidade que conservadores, ele não é necessariamente insincero. Na sua condição delirante, justifica seu altruismo nas ações que, pelo menos em teoria, conduzem à sociedade futurista que ele idealizou, ainda que para isso precise incinerar populações inteiras durante o processo de construção.
Uma das maiores dificuldades auto-impostas por conservadores é sua insistência em tratar a posição esquerdista como um argumento legítimo a ser atacado logicamente, ao invés de reconhecer que essa condição decorre de uma desordem cognitiva socialmente induzida e auto-fortalecida.
Eu mesmo reconheço ter insistido nesse approach por mais tempo do que deveria. O tratamento dedicado à esquerda deve ser mais psiquiátrico e menos dialético. E isso é algo que os conservadores precisam levar em consideração se quiserem efetivamente combater esse transtorno persistente.
Ao elevar esquerdistas de sua condição de paciente de um distúrbio de realidade ao patamar de opositor legítimo, o conservador está admitindo um debate com um oponente que não está amarrado a premissas fundamentais de qualquer troca de idéias racional, como a existência de uma realidade comum e cognoscível por meio dos fatos experimentados no passado. Derivando dessa premissa, qualquer tentativa de debate é um empreendimento fútil de produção de ruídos, saliva e agitação de braços condizente com a realidade de um hospício.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Por uma Nova Direita - Parte I
Publicado originalmente em 14/01/2011
Ao fim do regime militar brasileiro nenhum político tinha coragem de se dizer de Direita e enfrentar inevitáveis acusações de ser um "filhote da ditadura".
Tal situação - e tal covardia - deu aos esquerdistas três décadas para se apresentar como heróis da resistência, em uma estratégia de propaganda que visava redesenhar a imagem que a população tinha deles como baderneiros e terroristas, ao mesmo tempo em que lançava toda a Direita na vala comum dos torturadores e golpistas.
A Esquerda perdeu a luta armada, mas saiu ganhando na Guerra Cultural.
Os danos poderiam ter sido neutralizados se, do outro lado, políticos direitistas rechaçassem as acusações valendo-se apenas da verdade óbvia, que a Direita não era o que a Esquerda dizia ser. Ninguém de bom senso espera que inimigos políticos em guerra ideológica troquem alegações isentas um sobre o outro.
Fizeram o contrário.
A Direita assumiu uma postura defensiva, chegando a negar sua própria identidade classificando-se como "centro", postura suicida que legitimou tacitamente o discurso de ataque das esquerdas.
Sem resistência, a Esquerda se viu livre para se apropriar dos qualificativos de democrática, progressista e promotora da justiça social, infligindo à Direita os rótulos de autoritária, retrógrada e elitista.
Por mais pueril que seja a idéia de que um dos lados do espectro político só reúna virtudes enquanto o outro só acumula pecados, a repetição ano após ano, década após década do discurso autobeatificante da Esquerda, somada ao silêncio dos que deveriam contestá-lo, alimentou no público uma dúvida razoável – se a Direita não é o que a Esquerda diz, é o que então?
Qualquer projeto direitista no Brasil deve começar divulgando claramente quem e o que a Direita é.
Uma nova Direita brasileira que assuma a missão de combater a Esquerda tanto no embate político-partidário quanto na Guerra Cultural, precisa mostrar sua cara, assumir seu nome e dizer a que veio – mostrar-se alternativa melhor para o exercício do poder político.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
O discurso abortista nas últimas décadas
Postado originalmente em 07/05/2008 às 19:22
A maior parte dos defensores do aborto não gosta muito de História das idéias, pois se gostasse veria que suas opiniões seguem orientações ditadas pelo modismo ideológico da época.
Assim, nos anos sessenta, tempo daquela conversa mole de amor livre, paz e amor, faça amor, não faça guerra, sexo, drogas e rock'n roll e outras genialidades tais, a tônica do discurso abortista era ditado pelo feminismo libertário, que tentava estabelecer com os homens, por vias artificiais, uma igualdade que a natureza negou a elas - a possibilidade de transar sem risco de ficar grávido – privilégio nosso que enfurecia as feministas a ponto de defenderem quaisquer medidas que corrigisse esta injustiça natural, aborto incluso.
Depois de algum tempo de revolução sexual, o fato de mulher poder ir para cama com quem e quando quisesse deixou de ser novidade e de dar IBOPE, assim, o discurso feminista sexualista libertário saiu de cena, substituído pelos slogans irados dos jovens mudadores do mundos de 1968 e seus sucessores, que requentaram aquela conversa surrada que vinha desde a Revolução Francesa, do discurso engajado pela libertação dos oprimidos, incluído aí libertar as mulheres da opressão da gravidez que lhes era imposta pela sociedade burguesa e machista.
Depois também cansou e veio um novo tempo, mais, digamos, humanista, intimista e sentimental, no qual os abortistas ergueram a bandeira da defesa das milhares, centenas de milhares, dezenas de milhões de mulheres que morriam todos os anos vítimas das terríveis mazelas do aborto clandestino e, por isto, proclamavam os mais nobres sentimentos de solidariedade com estas pobres que ansiavam que os insensíveis governantes aquiescessem ao urgente apelo daquelas massas sofridas.
Algo assim como o Dancin'Days, se é que alguém aqui lembra disto.
E finalmente, quando o clamor pelas milhões de vítimas do aborto clandestino se mostrava muito mais presente no discurso político que em qualquer evidência estatística confiável, surgiu o moderníssimo discurso cientificista que com base em avançadas técnicas diagnósticas descobriu a essência da identidade humana nos resultados de exames instrumentais e laboratoriais e decretaram, com o aval de suas opiniões, quem é gente e merece viver e quem não é e não merece.
Ano que vem alguém aparece com coisa nova, quem sabe...
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Comentários sobre a educação pública no Brasil - parte 5
Publicado originalmente em 12/07/2007 às 17:44
No olho do furacão da catástrofe que se abateu sobre o sistema público de ensino brasileiro nas últimas décadas está o professor, tanto como indivíduo e profissional quanto como instituição.
O significado tradicional da instituição do professor pode ser ilustrado no seguinte relato da experiência de um casal de dekasseguis brasileiros, formados em curso superior no Brasil, que foram para o Japão trabalhar naqueles serviços operários básicos pelos quais os japoneses natos não se interessam mais.
Contam que os japoneses não expressavam nenhuma reação quando ele informava que era engenheiro, mas que todos se mostravam muito impressionados quando ela dizia que era professora, a partir do que passavam a tratá-la com distinção especial.
Esta distinção especial é antiga, natural e esperada na imagem do professor.
Exceto no Brasil de hoje.
De hoje, pois em outras épocas a profissão recebia neste país a mesma reverência prestada pelos nipônicos, apenas menos cerimonial do que é típico no oriente.
Como e porque nossos professores perderam a aura de respeitabilidade que lhes era inerente é uma repetição em nível pessoal e profissional do mesmo processo de perda de valor sofrido pela educação brasileira.
Isto se constata pela freqüência alarmante com que se repete a absurda frase "quem faz a escola é o aluno". Ora, se quem faz a escola é o aluno, o professor então não serve para nada, quando muito é um coadjuvante menor no teatro da aprendizagem.
Naqueles tempos no Brasil, a imagem do professor era a do intelectual, não que todos cumprissem rigorosamente os requisitos da definição, mas por ser este o modelo que melhor retratava o ideal da profissão.
Se a imagem de intelectual dava forma ao educador, seu conteúdo era de estofo ainda mais respeitável, portador que era de uma autoridade moral e social tacitamente delegada como extensão da autoridade paterna.
A escola era uma continuidade simbólica da instituição familiar, que promovia de modo gradual e assistido a transição da criança do seio protegido da família para o mundo, complementando a educação recebida em casa, treinando-a no convívio social e reforçando-a com os conhecimentos sitos além da experiência doméstica.
Isto só era possível pela existência de uma sintonia fina entre os valores familiares tradicionais e os valores institucionais da educação, que se congregavam na pessoa do professor.
Este cenário vigorava em um Brasil pré-industrial e pré-urbano, no qual uma educação pública artesanal praticamente se restringia à minoritária população das cidades.
Para os ideólogos de esquerda, o professor tradicional representava o extremo oposto do que vislumbravam a frente das salas de aula.
O educador comprometido com o aprendizado individual de seus alunos, com a preservação e transmissão do saber e com os valores familiares e cívicos passava a ser visto como um elemento obsoleto e reacionário a serviço dos interesses da classe dominante, que alienava o proletariado, intoxicando-o de cultura burguesa.
Este modelo de professor deveria ser substituído por elementos politicamente engajados ou, no mínimo, conscientes, dentro do significado político-ideológico dado a estes termos, que assumiriam a missão de transformar as escolas e, a partir delas, transformar a sociedade.
A formação deste novo professor não seria problema, uma vez que a maioria das escolas de filosofia, letras e ciências sociais das universidades, que ditava o perfil do professorado, era alinhada com a ideologia esquerdista.
Assim, o desmonte ideológico do sistema de ensino foi acompanhado em paralelo da desconstrução (para usar uma palavrinha da moda) da instituição do professor.
Para esta desconstrução contribuíram principalmente dois grupos de fatores, um externo e outro interno àquela categoria profissional.
O externo proveio dos militares governantes, que consideravam que o professorado tradicionalista seria incapaz de apresentar a produtividade requerida pelos planos desenvolvimentistas que exigiam instrução básica em massa.
O interno, mais danoso, gerado no próprio seio do professorado, um núcleo militante encarregado de minar o orgulho, auto-estima e senso de missão dos educadores, fazendo com que se vissem apenas como trabalhadores explorados e mal pagos, em nada diferentes das massas operárias que ensinavam e com as quais deviam se alinhar na luta comum contra a classe dominante opressora.
Atacada de fora por uma política desenvolvimentista que estupidamente priorizava a quantidade em detrimento da qualidade e de dentro pela militância infiltrada, a imagem pública do professor decaiu do receptáculo de saber, respeitabilidade e valores para a de categoria reivindicante, apenas mais um coletivo de trabalhadores sem diferencial distintivo de qualquer outro.
A esta perda das distinções seguiu-se o esvaziamento das vocações, com as vagas de professores preenchidas em grande parte não mais por idealistas que sempre almejaram tal oficio, mas por pessoas de formação diversa que tinham o magistério como segunda ou terceira opção profissional, ao qual recorriam na falta de alternativa melhor.
Esta decadência atingiu o fundo do poço quando se tornou recorrente entre os próprios professores culpar os baixos salários por todos os problemas do ensino, como se esta deficiência, por si só, explicasse a ignorância generalizada, o desinteresse visível e os resultados desastrosos que a cada ano pioravam dentro da educação pública.
Invertendo a tradição de que sobre o homem educado recaem mais deveres e responsabilidades, os professores, os homens que educavam, apelavam a subterfúgios jamais usados pelos mais simples artesãos. Neste país os pedreiros em geral nunca receberam altos salários por seus serviços, mas não dá nem para imaginar por causa disto pedreiros construindo sistematicamente prédios que desabam e pondo a culpa na baixa remuneração.
O professor ideologicamente descontruído perdeu esta lógica simples.
A esperança de futuro reside nos resistentes, aqueles que contra toda a oposição preservaram o antigo compromisso com o saber, o estudante e os valores cívicos.
Comentários sobre a educação pública no Brasil - parte 4
Publicado originalmente em 09/07/2007 às 22:23
O erro mais comum nas muitas análises sobre causas e soluções do problema do ensino público brasileiro é que a maioria se atém a elementos operacionais do sistema – volume de verbas, remuneração dos professores, métodos pedagógicos e pouco se fala do fundamental, as filosofias que orientam a formulação das diretrizes.
Estas filosofias estão em parte explícitas na Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional, um pastiche ideológico que oficializou com quarenta anos de atraso as propostas de Paulo Freire e outros ideólogos de esquerda da educação, mas sua identificação completa deve ser tirada da práxis da implantação do projeto marxista de educação ao longo deste tempo.
Relembrando dos comentários anteriores, a esquerda desviou o foco educacional da tradição católica do indivíduo que melhora a si mesmo e a partir de si pode melhorar a sociedade, para a ideologia coletivista da sociedade que progride historicamente e, no processo, melhora o indivíduo.
Assim, podemos encontrar nas diferenças entre estas diretrizes a origem da maioria dos problemas da educação pública brasileira.
Diretrizes tradicionais de inspiração católica:
- A função da escola é preservar e transmitir o saber humano acumulado;
- O saber promove a ascese espiritual do indivíduo;
- A educação conscientiza o homem de seus deveres e responsabilidades individuais.
Diretrizes coletivistas de inspiração marxista:
- A função da escola é conscientizar as massas;
- A escola deve promover a mudança social;
- A educação deve preparar as classes exploradas para seu papel histórico.
As primeiras coisas que os brasileiros devem se perguntar quando analisam o fracasso do sistema público de ensino são porque não mudam o sistema?
Por que os teóricos que o desenharam não são repudiados e suas propostas abandonadas e substituídas por alguns dos muitos outros modelos internacionais bem sucedidos, inclusive em países pobres?
Por que vemos estes mesmos teóricos preservando altos cargos na hierarquia burocrática estatal do ensino, dando entrevistas defendendo seus modelos, ao mesmo tempo que apontam soluções para os problemas da educação como se eles próprios não tivessem nada a ver com eles?
A resposta é que para os teóricos de esquerda o modelo é um sucesso, dado que seu objetivo não é ensinar alunos, trazê-los da ignorância e pô-los em contato com o legado do gênio humano a partir de onde poderão encontrar modelos em que se inspirar para realizar seu pleno potencial como seres humanos.
Estes são valores da educação tradicional, que os pais desejam para seus filhos, mas não que os ideólogos desejam para a "massa estudantil" que para eles é massa de manobra para a "mudança social", o verdadeiro e único objetivo de seu modelo, que pouco se importa se o filho da D. Maria sabe ou não sabe interpretar textos simples quando chega ao nível médio.
Quando expulsaram da escola pública a excelência, disciplina e civismo, rechaçados como elitismo, repressão e ditatorialismo prepararam o terreno passo a passo para a ignorância generalizada, a falta de respeito dos alunos para com professores e a instituição escolar e o desprezo pela própria Pátria, a qual não encontrava mais nas salas de aula quem a enaltecesse ou defendesse.
Na origem de todo o mal está o abandono da tradição de que o homem educado tem mais deveres e responsabilidades do que o homem ignorante.
Em outros tempos, um homem instruído que apresentasse comportamentos socialmente reprováveis era repreendido com a frase "você estudou e se comporta como um ignorante?".
Estudar significava assumir MAIS deveres sociais.
Nos ideário esquerdista, estudar significa ser conscientizado dos direitos sociais que deve reivindicar e apenas dos direitos.
Deve ser óbvio a todos qual das duas diretrizes produz uma sociedade melhor.
Comentários sobre a educação pública no Brasil - parte 3
Publicado originalmente em 07/07/2007 às 20:58
Definido o plano ideológico de desmonte do sistema tradicional de ensino e sua substituição por um modelo coletivista de inspiração marxista, sua colocação em prática dependia da capacidade de seus ideólogos em driblar a vigilância dos militares governantes, seduzidos pela promessa de instalação de um ensino de massas voltado para a formação técnica de mão-de-obra para a indústria, mas ainda muito pouco tolerantes com qualquer tipo de doutrinação política esquerdista explícita.
Além disto, as escolas ainda estavam cheias de professores e diretores formados na antiga tradição de saber individual como objetivo, disciplina e dedicação como meios, que resistiriam à nova filosofia oficial de ensino.
O desmonte começou pelos currículos escolares, a partir do de humanidades.
- Latim? Se é uma língua morta pra que ensinar?
- Filosofia? Coisa de quem não tem o que fazer.
- Literatura Portuguesa? O que Camões sabia sobre a realidade brasileira?
Seguido do ensino da matemática.
- Demonstrar teoremas? Pra que se já sabemos que estão certos?
- Conceitos fundamentais de geometria plana? Só interessam as equações.
- Polinômios? Vão usar isto onde?
E das ciências naturais:
- Experimentação? Laboratórios são caros...
Em compensação as ciências sociais ganhavam um novo destaque, com as aulas de História, Geografia e Educação Moral e Cívica sendo continuamente assumidas por professores marxistas, que expunham suas disciplinas segundo suas convicções ideológicas.
Detonados os currículos, seguiu-se a pulverização dos valores tradicionais da escola.
Excelência passava a ser considerada elitismo, os padrões de exigência deviam se adaptar aos menos capazes e não exigir deles que se esforçassem mais para apresentar melhor desempenho.
Disciplina passava a ser considerado repressão, o professor não devia se colocar acima do aluno como um ser superior e distante e sim tratá-lo como igual, os rituais de demonstração de respeito deviam se abolidos, punição devia ser substituída pelo diálogo.
Civismo passava a ser considerado propaganda da ditadura, o hasteamento da bandeira e o Hino Nacional deviam ser suprimidos.
Com o fim do regime militar o processo de desmonte do ensino tradicional se completou.
Não apenas desaparecia de cena a repressão ao esquerdismo, como se estabelecia sua dominância ideológica, já que tudo que podia ser associado à ditadura moribunda devia ser considerado mau e repudiado.
O tempo fizera seu papel conduzindo à aposentadoria os professores e diretores da velha guarda, apegados aos valores do ensino tradicional.
Os ideólogos de esquerda eram agora senhores absolutos das escolas públicas brasileiras.
Comentários sobre a educação pública no Brasil - parte 2
Publicado originalmente em 07/07/2007 às 20:10
Os ideólogos marxistas encarregados de reformar o ensino público brasileiro, sob a benção dos militares governantes, iniciaram uma estratégia de desmonte dos valores tradicionais herdados da educação católica:
- A função da escola é preservar e transmitir o saber humano acumulado;
- O saber promove a ascese espiritual do indivíduo;
- A educação conscientiza o homem de seus deveres e responsabilidades individuais.
O que tornava o modelo tradicional de educação vulnerável à crítica é que este não tinha pretensões de ser aplicável em massa, preferindo à qualidade à quantidade e admitindo uma hierarquia social que situava as pessoas cultas e educadas no topo.
Para os marxistas o modelo de ensino tradicional era elitista, socialmente discriminatório e orientado para a preservação do status quo.
Era claro para eles que não era um modelo a ser reformado, mas desmontado completamente e substituído por outro erigido sobre valores marxistas:
- A função da escola é conscientizar as massas;
- A escola deve promover a mudança social;
- A educação deve preparar as classes exploradas para seu papel histórico.
Parece estranho que os militares tenham aceito tal modelo, que além do esquerdismo óbvio ainda contrariava a educação tradicional clássica dada na Academia Militar das Agulhas Negras, Escola Naval e Academia da Força Aérea, centros de ensino de excelência nas quais todos os oficiais se formaram.
Houve que os ideólogos de esquerda acenaram com o que os generais mais queriam na época, que era transformar as escolas públicas em centros profissionalizantes de massa, capazes de alfabetizar e preparar toda uma geração para o exercício das profissões técnicas na indústria.
Os que atentaram para as diferenças entre os princípios da escola tradicional e os de seu substitutivo marxista notaram uma guinada de um foco no encontro entre o indivíduo e o conhecimento, visando formar um indivíduo melhor, para uma proposta de conscientizar as massas visando construir uma sociedade melhor.
Ou seja, a instalação de uma visão coletivista no ensino.
O grande mal do ensino de orientação marxista é que nele pouco importa se cada aluno individualmente aprendeu alguma coisa e cresceu como ser humano.
Neste modelo o sucesso é medido coletivamente, a partir de o quanto a sociedade, classes ou as massas se tornaram mais conscientes, uma abstração sem significado lógico, mas que é a base desta percepção ideológica da realidade.
Vem daí a origem dos efeitos hoje percebidos por todos, escolas que não reprovam os alunos inaptos e não se importam com o fato de eles chegarem ao ensino médio na condição de analfabetos funcionais.
Enquanto o ensino tradicional se importa em saber o quanto determinado aluno aprendeu, o quanto determinado indivíduo sabe, o modelo marxista se importa com o total de saber passado ao coletivo, à massa indefinida e abstrata que é o centro e objetivo do modelo e o quanto este saber os preparou para seu papel histórico, a construção da sociedade plenamente igualitária.
Comentários sobre a educação pública no Brasil - parte 1
Publicado originalmente em 07/07/2007 às 18:58
Para se entender a decadência do ensino público no Brasil convém fazer uma retrospectiva do histórico desta decadência.
Até a década de 1960 o ensino público brasileiro era de qualidade, mas só era acessível aos que moravam nas cidades, enquanto a maioria da população vivia nas zonas rurais onde as escolas eram poucas, o acesso difícil tanto para professores quanto para alunos, o que resultava em altos índices de analfabetismo no campo.
Mesmo na cidade, a grande maioria dos alunos do então nível secundário pertencia às classes média e alta, uma vez que era regra que os pobres abandonassem os estudos após o curso primário ou ginasial, para começar a trabalhar.
O modelo escolar e pedagógico era fortemente inspirado na tradição das escolas católicas, com disciplina rígida e currículo dividido entre humanidades e ciências, sendo que a profissionalização especialista era papel da Universidade, inacessível aos pobres que só obtinham profissionalização no aprendizado prático de atividades técnicas.
Com a industrialização e urbanização acelerada que o país sofreu a partir desta época, ficou óbvio aos governantes que o analfabetismo seria um limitador do desenvolvimento econômico, uma vez que a Indústria requeria grandes quantidades de mão-de-obra e as massas analfabetas migrantes do campo não preenchiam os requisitos mínimos das funções operárias como ler instruções escritas, fazer registros simples ou operações matemáticas básicas, o que exigia a manutenção de uma dispendiosa burocracia industrial auxiliar, para compensar esta deficiência.
Isto veio de encontro aos planos ambiciosos dos militares que tomaram o poder em 1964 e que acreditavam em um projeto ambicioso de transformar o país em uma potência industrial ao longo de uma geração.
O objetivo urgente era universalizar a educação, erradicar o analfabetismo urbano e diminuir o rural e adequar os currículos escolares às necessidades da nascente civilização urbana industrial.
O resultado foi uma aliança insólita.
Enquanto o regime militar reprimia ferozmente as organizações de esquerda, culminando com o extermínio dos grupos guerrilheiros armados, o projeto de reforma do ensino foi construído sobre idéias e filosofias de pedagogos marxistas, que por um destes azares da vida convergiam com os objetivos dos militares.
Como os generais queriam um ensino de massa, que formasse rapidamente grandes populações cujas famílias não freqüentaram a escola, mas entendiam que nos novos tempos o estudo abria as portas de melhores empregos e possibilidade de ascensão social, encontraram um modelo pronto nas propostas educacionais marxistas, focadas em classes sociais, doutrinação de massas e pragmatismo, tudo que acreditavam precisar no momento.
A ironia está em que os mesmos militares que foram notoriamente eficazes em erradicar a influência comunista do aparato do Estado, sonhando a partir daí construir uma grande nação, trouxe esta mesma ameaça para dentro das salas de aula, iniciando o processo de destruição do ensino público brasileiro que quatro décadas depois se tornou o maior empecilho ao desenvolvimento nacional que tanto almejavam.