quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Provando um argumento abortista como estúpido e sem-vergonha – parte 3.

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 30 Mar 2007, 14:27


Passando à segunda afirmação:

É muito mais óbvio atribuir o termo "abortistas" ao defensores da proibição da I.V.G. visto que esta proibição na maioria dos casos acarreta um número elevado de abortos, tanto pela facilidade de recurso a um aborto clandestino em qualquer esquina, como pelo grau de responsabilidade ser menor, visto poder estar fora dos olhos da sociedade. Recorrendo ao aborto clandestino uma mulher pode desprezar qualquer responsabilidade pois não enfrenta qualquer tipo de reflexão, simplesmente paga e faz. Estes acontecimentos fazem com que várias mulheres abortem clandestinamente várias vezes, pois não possuem qualquer tipo de pressão social em foco da responsabilidade Humana. É só pagar e fazer.

Porque o argumento é estúpido:

Além das já demonstradas ilógicas correlações entre conseqüências do ato e ineficácia do ato e entre apoiar uma causa e apoiar seus efeitos colaterais, o argumento se sustenta sobre outros absurdos:

1. O acesso ao aborto clandestino é menos problemático do que ao aborto legal;
2. O aborto clandestino implica em responsabilidade menor;
3. O aborto clandestino é feito longe dos olhos da sociedade;
4. A mulher que opta pelo aborto clandestino não enfrenta qualquer tipo de reflexão;
5. O aborto clandestino é uma questão simples de pagar e fazer;
6. A mulheres abortam várias vezes pela soma destes motivos;
7. O aborto clandestino não traz pressão social.

Apontar tantos absurdos em tão poucas linhas pode parecer, a priori, uma estratégia para desqualificar retoricamente o argumento analisado, mas é uma necessidade, dentro da proposta didática de se apresentar aqui o quanto o discurso ideológico pode renunciar à lógica mais elementar e ainda assim se fazer crido e repetido como um mantra.

Antes de analisar cada absurdo destacado um a um, peço atenção a um detalhe que denuncia o absurdo do conjunto, pois se o aborto clandestino é tão mais acessível, sem responsabilidades, reflexões ou cobranças que o aborto legalizado, que garantia se tem de que as mulheres não continuarão recorrendo a ele após a legalização, justamente para fugir às alegadas dificuldades que a legalização criaria a um ato antes proibido?

Não é mais lógico supor que, se tão simples e fácil fosse, a legalização não eliminaria o aborto clandestino, mas antes se somaria a ele, permitindo à mulher optar sobre qual alternativa melhor lhe convém?

É o mesmo erro lógico dos que alegam que a legalização do comércio de drogas, por si só, eliminará o traficante, desconsiderando que muitos consumidores ainda preferirão recorrer ao comércio ilegal por variados motivos, a começar do anonimato garantido pelo fornecimento criminoso.

Mas voltando à análise individual dos absurdos;

1. O acesso ao aborto clandestino é menos problemático do que ao aborto legal;

O absurdo é óbvio, pelo próprio significado da palavra proibição que implica necessariamente em ações coercitivas que impeçam ou dificultem a execução do ato proibido.
Se o ato proibido é executado com menos empecilhos que o ato legal, então a proibição não existe, sendo apenas formal.

Por mais ineficaz que seja a proibição do aborto, está muito longe de ser apenas formal, dado que tanto seus executantes e promotores quanto suas pacientes estão sujeitos à repressão policial, processo criminal e cadeia.

O risco de cadeia, por menor que seja considerada a ineficácia da repressão, por si só é fator persuasivo suficiente para tornar o aborto ilegal mais arriscado que o legalizado.
Este fator é decisivamente persuasivo para médicos, que sabem muito bem que ser flagrado e indiciado como aborteiro ilegal representa o fim de sua carreira, a cassação de seu registro e o ostracismo social, mesmo que o final do processo não implique em prisão.
Para a maioria dos médicos e profissionais especializados da saúde isto é fator persuasivo suficiente, dado que a relação custo-benefício insatisfatório inibe a prática aborteira mesmo entre aqueles da comunidade que não tem restrições morais a respeito.

A indisponibilidade de médicos, profissionais especializados e equipamentos minimamente adequados praticamente impede o aborto nos meses avançados de gestação, restringindo sua execução a condições que implicam em altíssimo e óbvio risco para a gestante que se submeta a elas, o que também impõe uma dificuldade óbvia, que funciona também como fator persuasivo com base no custo-benefício.

Além disto, o risco de cadeia e do ostracismo social restringe os profissionais especializados dispostos à prática aborteira ilegal àqueles que, além da ausência de restrições morais, entendem que devem cobrar preços que compensem estes riscos, dificultando o acesso por uma questão auto-explicativa de mercado, principalmente em países ou regiões pobres.

Do mesmo modo, o recurso a aborteiros não qualificados e potencialmente baratos repete os riscos médicos destacados acima.

Assim, o aborto clandestino implica em riscos reais de cadeia, ruína profissional, financeira e social dos profissionais especializados que se dedicam a ela, alto custo por conta do risco e alto risco por conta do baixo custo.
Somados estes fatores, tem-se que é absurdo concluir que o aborto clandestino, alegadamente disponível sem dificuldades "em qualquer esquina", seja uma opção menos problemática que o aborto legal, que ofereceria inclusive segundo as propostas existentes, o atrativo da gratuidade.

2. O aborto clandestino implica em responsabilidade menor;

Como a execução do aborto clandestino pode implicar em responsabilidade menor que a do aborto legalizado, se sobre quem o faz recai a responsabilidade penal do ato?

O absurdo vem da afirmação "proibição ... acarreta ... grau de responsabilidade ... menor, visto poder estar fora dos olhos da sociedade"

Ora, não há correlação entre responsabilidade e estar dentro ou fora dos olhos da sociedade.
As responsabilidades de um cidadão não desaparecem quando ninguém está olhando para ele.
O erro está em uma óbvia confusão entre responsabilidade e imputabilidade.
A sociedade talvez não possa punir todos os casos de aborto clandestino, o que não implica que haja responsabilidade menor dos envolvidos, antes pelo contrário, pelos motivos citados.

3. O aborto clandestino é feito longe dos olhos da sociedade;

Uma pergunta simples, que expõe o absurdo desta afirmação é se o aborto clandestino é feito longe dos olhos da sociedade, como os defensores da legalização do aborto o utilizam como argumento em defesa de sua causa?

Os defensores da legalização do aborto fazem uso intensivo e extensivo de dados relativos aos abortos clandestinos, enquanto o argumento diz que ele é feito longe dos olhos da sociedade.
Se assim é, ou todos os dados apresentados pelos defensores do aborto não são confiáveis e apresentá-los como se fossem constitui um ato desonesto ou os dados são confiáveis e o aborto clandestino não é feito longe dos olhos da sociedade.

Outro ponto que destaca o absurdo da afirmação é que ela não define o que são "os olhos da sociedade", uma metáfora que pode significar o Estado, mas não deixa isto claro.
Assim, o aborto legalizado estaria próximo dos "olhos da sociedade" por ser feito sob o controle e tutela do Estado, enquanto o clandestino se faz às escondidas dele.
O absurdo se concentra no fato que Estado e sociedade são coisas distintas, que se tornam uma coisa só apenas quando interpretadas ambas sob o viés ideológico que prega que o que não é supervisionado pelo Estado, não é supervisionado por ninguém.

Uma gravidez não é coisa fácil de esconder, mesmo quando se quer isto.
Na maioria dos casos de gravidez indesejada que pode motivar uma opção pelo aborto ocorre o envolvimento das famílias, parceiros e amigos da gestante, sendo que estas pessoas não só fazem parte da sociedade, como é a parte da sociedade pessoalmente interessada nos eventos em andamento, ao contrário do Estado, que é uma abstração burocrática, fria, distante e impessoal, para quem a grávida será apenas um ponto em uma estatística sobre a qual os burocratas estatais se debruçarão e tirarão as conclusões que quiserem.

Achar que este controle distante, impessoal e estatístico represente os olhos da sociedade junto à gestante mais do que a proximidade de pais, companheiros, amigos, vizinhos, empregadores, colegas de trabalho etc, aquela gente que vê a barriga crescer e saberá o que houve se ela de repente sumir, é outro absurdo.

4. A mulher que opta pelo aborto clandestino não enfrenta qualquer tipo de reflexão;

O absurdo deste quarto item é tão auto-evidente que sua exposição só é feita para garantir a completeza desta análise.

Reflexão, pelo próprio sentido da palavra, implica em um ato íntimo, o direcionamento dos pensamentos individuais de si para si, visando chegar a uma conclusão que se crê melhor atingida deste modo.

Afirmar que a mulher que opta pelo aborto clandestino não enfrenta qualquer tipo de reflexão implica em concluir que reflexões individuais, pensamentos de si para si, são determinados pelo status legal de uma questão, sendo que as mulheres que optam pela alternativa ilegal se tornam automaticamente incapazes de exercer a faculdade da reflexão.

O absurdo da afirmação se reforça quando se considera a possibilidade bastante plausível de a gestante que opta pelo aborto clandestino estar violando seus próprios princípios religiosos ou morais, vivendo, portanto um conflito de consciência que não pode dividir com ninguém.
Dizer que pessoas nesta situação não enfrentam reflexão apenas porque não comparecem diante de um psicólogo ou comitê formado por alguma organização estatal demonstra, mais uma vez, uma percepção ideológica do papel do Estado que nega ao indivíduo apartado dele as capacidades mais elementares, como refletir.

5. O aborto clandestino é uma questão simples de pagar e fazer;

O aborto clandestino não é uma questão simples de pagar e fazer, pelos fatos já relacionados e mais.
Primeiro, a gestante terá que localizar onde obter os serviços de um executante de abortos, o que implica em fazer perguntas e se expor aos riscos de ser questionada sobre suas intenções ilegais.
Foi dito que estes serviços estão disponíveis em qualquer esquina, mas cabe a quem fez a afirmação prová-la. De minha experiência pessoal, vivendo em um país onde o aborto é proibido, nunca encontrei evidência de que a cada esquina houvesse quem o executasse.

Mesmo que a questão fosse pagar e fazer, isto não a torna simples. Abortos feitos com segurança e conforto são muito caros, inacessíveis para as classes baixas de países pobres. Abortos baratos implicam em risco de vida para a gestante.
A questão então não é um simples pagar e fazer, mas pagar mais caro do que seus recursos permitem ou arriscar a vida para obter custos menores.

6. A mulheres abortam várias vezes pela soma destes motivos;

Outra afirmação que contém um erro de causalidade óbvio.

Dizer que as mulheres abortam várias vezes pelos motivos que apontariam a facilidade do aborto clandestino, refutada caso a caso nesta análise, é o mesmo que dizer que as pessoas optam por um problema por conta da disponibilidade de recursos para corrigir o problema.
Algo como afirmar que as pessoas batem o carro porque é fácil encontrar os serviços de oficina que o repare.

Desnecessário mais que isto para destacar o absurdo da afirmação.

7. O aborto clandestino não traz pressão social.

Uma prova de que o aborto clandestino traz pressão social é o fato de os defensores da legalização do aborto o utilizar como motivo para suas reivindicações, o que é uma forma de pressão social.

No mais, de novo a confusão entre pressão estatal ou sua afiliada ideológica, a pressão militante organizada, com pressão social.
A verdadeira pressão social contra o aborto clandestino, além do óbvio âmbito policial e jurídico, se dá na sociedade próxima da gestante, sua família, companheiro e pessoas próximas envolvidas.
Dizer que isto não significa pressão social é negar a estas pessoas o status de membros e representantes da sociedade, mais ainda, de membros e representantes da sociedade mais interessadas no problema e transferir esta representatividade para organizações anônimas.

Absurdo pois.

Provando um argumento abortista como estúpido e sem-vergonha – parte 2.

Por Acauan Guajajara

Postado originalmente em 30 Mar 2007, 11:08

Continuando com a afirmação comentada na parte 1:

É muito mais óbvio atribuir o termo "abortistas" ao defensores da proibição da I.V.G. visto que esta proibição na maioria dos casos acarreta um número elevado de abortos, tanto pela facilidade de recurso a um aborto clandestino em qualquer esquina, como pelo grau de responsabilidade ser menor, visto poder estar fora dos olhos da sociedade.

Porque o argumento é sem-vergonha:

Como dito, um argumento é sem-vergonha quando lhe falta moral.

O aborto não é polêmico enquanto discussão científica sobre as capacidades ou potencialidades neurológicas do embrião e do feto, e sim como questão moral, que confronta o direito potencial da mulher de renunciar a uma gravidez indesejada contra a limitação a este direito estabelecida pela existência de outra vida humana na questão, cujo ciclo de vida individual já foi iniciado.

Questões morais muitas vezes não nos permitem o conforto da escolha fácil entre o BEM pleno e o mal absoluto.
As polêmicas surgem quando as escolhas se situam na zona cinzenta onde se deve optar entre um mal maior e um mal menor, sem ter certeza sobre a veracidade dos métodos que definem qual é qual.

Nestas situações há três posturas morais possíveis:

1. Não assumir posição, mantendo-se neutro;
2. Assumir uma posição e suas conseqüências, negativas e positivas;
3. Assumir uma posição e suas conseqüências positivas, mas negar-se a assumir as negativas.

Os que assumem a primeira posição, a da neutralidade, respondem moralmente por ela conforme o caso, dado que esta neutralidade pode ter vários motivos, que vão da comodidade ou conveniência ao sincero interesse de conhecer melhor a questão antes de decidir, visando prevenir uma tomada de posição incorreta.

Os que optam por assumir uma posição e suas conseqüências, positivas e negativas, enfrentam sempre o risco de haver tomado a posição errada, mas terão ao seu favor o reconhecimento de que tiveram a coragem moral de assumir uma decisão e suas conseqüências, quando era necessário que se fizesse isto.

O terceiro caso apresenta uma deficiência moral óbvia, dado que os que optam por ela aceitam apenas os benefícios da posição assumida, mas não os seus ônus, uma atitude claramente desonesta.

O argumento de que os favoráveis a proibição do aborto são abortistas coloca os defensores da legalização que se valem dele na terceira posição, moralmente classificáveis como acima posto.

Quem defende a proibição do aborto deve assumir consciente e necessariamente que muitas mulheres sofrerão problemas em decorrência disto e, possivelmente, muitas crianças nascidas indesejadas também.

Quem defende a legalização do aborto deve assumir que negou todas as chances de existência a muitas vidas humanas com o ciclo já iniciado e definido, renunciando a buscar alternativas a esta extrema.

Cada qual, dentro da honestidade de suas posições, deve assumir sua parcela de responsabilidade no que entende como o mal menor da questão, mesmo acreditando que o mal maior foi evitado.

Quando o argumento analisado tenta transferir para os defensores da proibição responsabilidades que não lhes cabem, como demonstrado na postagem anterior, na verdade querem isentar a si próprios do impacto negativo de suas decisões, apresentando-se a si próprios como defensores de todo o BEM e a seus adversários como portadores de todo o mal.

A verdadeira honra de uma causa reside justamente em assumir os ônus que traz.
A imoralidade do argumento reside em sua tentativa de criar uma realidade falsa onde se possa defender uma causa sem que nenhum ônus advenha dela, através da simples transferência deste ônus para os que defendem a posição oposta, utilizando para isto, no caso analisado, de uma retórica falha, lógica e moralmente, como demonstrado.

Provando um argumento abortista como estúpido e sem-vergonha – parte 1

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 30 Mar 2007, 10:23

Argumento abortista:

É muito mais óbvio atribuir o termo "abortistas" ao defensores da proibição da I.V.G. visto que esta proibição na maioria dos casos acarreta um número elevado de abortos, tanto pela facilidade de recurso a um aborto clandestino em qualquer esquina, como pelo grau de responsabilidade ser menor, visto poder estar fora dos olhos da sociedade. Recorrendo ao aborto clandestino uma mulher pode desprezar qualquer responsabilidade pois não enfrenta qualquer tipo de reflexão, simplesmente paga e faz. Estes acontecimentos fazem com que várias mulheres abortem clandestinamente várias vezes, pois não possuem qualquer tipo de pressão social em foco da responsabilidade Humana. É só pagar e fazer. Ser contra a regulamentação da I.V.G. em parâmetros minimamente consensuais leva à continuidade de números de aborto elevados, sendo estes números apenas especulações e não objectivos. Porquê? Porque nenhuma mulher irá a um hospital preencher uma ficha a dizer que abortou clandestinamente e que é criminosa e que deve submeter-se a um julgamento e possível prisão. Os números conhecidos provêm das mulheres que morreram em complicações derivadas do aborto clandestino, ou que foram a um Hospital por complicações menores. Factores como violação entram em várias leis de vários países em que não é despenalizada a I.V.G.. Na maioria dos casos nem o caso de violação é levado em conta, pois as excepções não conseguem ser geridas em virtude dessa mesma penalização. Várias mulheres violadas tentaram em vão abortar, mas antes dos processos juridicos e médicos chegarem a um consenso de quem é o pai, se ela foi mesmo violada, como um hospital irá gerir uma I.V.G. se esta é proibida, para além dos paralelos processos se perderem nas burocracias. Quando o veredicto chega já a criança nasceu. Assim sendo a designação de abortistas encaixa perfeitamente naqueles que querem que o aborto clandestino continue de boa saúde a tratar as mulheres e os fetos como se tratam as costelas de borrego num talho, efectuando sanguináriamente abortos em qualquer estado de gravidez, sem qualquer respeito por nada nem ninguém, onde impera o lucro. Assim facilmente se chega á conclusão que é muito mais simples abortar num país onde a lei o proíbe do que num país onde a lei o despenaliza e não liberaliza.

Abortistas são todos aqueles que compactuam com o aborto clandestino!

Provando um argumento como estúpido e sem-vergonha

Um argumento é estúpido quando lhe falta inteligência e sem-vergonha quando lhe falta moral.
As duas carências podem ser demonstradas no texto acima a partir de suas próprias contradições, sem necessidade de recorrer a dados externos, mesmo que alguns possam ser citados como complemento da demonstração.

Tomando a primeira afirmação:

É muito mais óbvio atribuir o termo "abortistas" ao defensores da proibição da I.V.G. visto que esta proibição na maioria dos casos acarreta um número elevado de abortos, tanto pela facilidade de recurso a um aborto clandestino em qualquer esquina, como pelo grau de responsabilidade ser menor, visto poder estar fora dos olhos da sociedade.

Porque o argumento é estúpido:

O argumento de que o termo "abortista", no significado de partidário do aborto é mais obviamente atribuível aos que defendem sua proibição é estúpido porque se sustenta sobre uma lógica falsa, que parte de uma premissa falsa e termina com uma desconexão evidente entre premissa e conclusão baseada no silogismo abaixo:

Se a proibição do aborto provoca aumento do número de abortos
E se há pessoas que apóiam a proibição
Então as pessoas que apóiam a proibição também apóiam o aborto.

Este silogismo é, obviamente, falho e qualquer argumento que se sustente nele é estúpido primeiro porque parte de uma premissa falsa.
Mesmo que se admita como verdadeiros os dados que correlacionam proibição e aumento do número de abortos – o que não está se fazendo ou deixando de fazer aqui – a premissa ainda seria falsa, pois o que levaria ao aumento do número de abortos seria a ineficácia da proibição e não a proibição em si, tanto quanto é a ineficácia do combate ao crime que promove seu crescimento e não, obviamente, a proibição da atividade criminosa.

Estabelecer uma correlação necessária entre ineficácia da proibição com necessidade de legalização, se aceito como logicamente válido, implica em propor a legalização de todos os crimes cuja repressão é ineficaz, sob o argumento de que a proibição é a causa de seu aumento.

Seguindo na demonstração da estupidez do silogismo usado como base do argumento, mesmo que a premissa fundamental não fosse incorreta como é, a inferência que leva da premissa à conclusão também é logicamente falha.

Dizer que:

Se a proibição do aborto provoca aumento do número de abortos
E se há pessoas que apóiam a proibição
Então as pessoas que apóiam a proibição também apóiam o aborto.

Implica em afirmar que se uma determinada ação possui efeitos colaterais indesejados, os que apóiam a ação necessariamente apóiam seus efeitos colaterais.
Se admitida como válido que a concordância com o ato implica na concordância com seus efeitos colaterais, então poderíamos montar o seguinte silogismo análogo ao primeiro:

Se o desenvolvimento de vacinas implica em teste cruéis com animais
E se há pessoas que apóiam o desenvolvimento de vacinas
Então as pessoas que apóiam o desenvolvimento de vacinas apóiam a crueldade com animais.

O absurdo é evidente, pois as pessoas podem apoiar o desenvolvimento de vacinas e ser contra a crueldade com animais e ser favorável a medidas que, sem eliminar as vacinas encontre alternativas para os testes cruéis. Este mesmo raciocínio vale, obviamente, para os alegados efeitos colaterais indesejados da proibição do aborto, que, também obviamente, são repudiados pelos defensores da proibição, que defendem soluções também para este problema que não a liberação pura e simples.

Queiram me desculpar os freqüentadores do fórum que dominam os fundamentos da lógica e podem se considerar menosprezados por uma contra-argumentação ter que descer a níveis tão iniciantes.

Mas, por vezes, isto é necessário, como se vê.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Estou torcendo por Israel

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 28/10/2005 23:14:00

Eu era uma criança quando Egito e Síria atacaram o Estado de Israel no Yom Kippur.

Lembro de ter comentado com meus amigos: Estou torcendo por Israel.

Por resposta tive "todos estamos".

Bons tempos aqueles em que meninos discutiam geopolítica.

Dias depois daquele, as forças de Israel avançavam decididas rumo a Damasco.
Foram detidas, não por qualquer resistência militar dos sírios, mas pelo ultimato da União Soviética, que deixara claro que interveriria para impedir que seus aliados no Oriente Médio sofressem mais uma derrota humilhante.

Eu e os demais meninos bem informados da época não sabíamos que, por conta do tal ultimato, enquanto estudávamos nossas lições as forças armadas dos Estados Unidos da América haviam entrado em DEFCOM 3, o estado de alerta que colocava o mundo a dois passos da guerra termonuclear global.

Hoje, diante das declarações do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad de que Israel deve ser varrido do mapa, me lembro e pergunto por que crianças que deveriam estar mais interessadas nas aventuras do super-herói do momento se posicionavam a favor de uma nação da qual sabiam tão pouco.

No meu caso, complementa-se esta com a pergunta de por que tal simpatia por um pequeno país com o qual não tinha a mais mínima afinidade cultural se manteve até hoje.

Demorou décadas até ter a resposta simples, tirada das palavras recentes do presidente do Irã.

O Estado de Israel é uma democracia que não prega que qualquer outro país ou povo deva ser varrido do mapa.
Isto explicaria, em princípio, a simpatia.
Definitivamente para o Estado Judeu, um povo que foi sentenciado por um ditador paranóico a ser varrido do mapa, mas que sobreviveu e construiu um país que quer apenas sobreviver.

Eretz Israel.
A Terra de Israel.

Uma terra muito distante da inocência, como gritam as vítimas de Deir Yassin, Sabra e Chatila.

Mas ainda assim uma terra onde foi construído o improvável.
Nascida no deserto, uma nação próspera, erigida sob o ideal de que o Estado existe para garantir a liberdade e a autodeterminação do indivíduo e (por que não repetir?) o direito inalienável da busca da felicidade.

Tributo a Roberto Campos

Por Acauan Guajajara

Publicado originalmente em 11/10/2005 08:57:00

Roberto Campos foi a grande chance desperdiçada que este país teve.
Foi o homem que nos mostrou o caminho que não seguimos e que poderia ter nos levado ao sucesso como nação.

Campos, como ministro do planejamento do governo Castelo Branco, quando os militares debatiam que modelo desenvolvimentista deviam dar ao país, defendeu vigorosamente o modelo exportador, direcionando investimentos na conquista de mercados externos e de maior participação no comércio mundial.

Venceu a facção que queria um modelo de substituição das importações, que fechou o mercado brasileiro com medidas protecionistas que corroeram completamente a competitividade internacional da nossa indústria.

Enquanto o Brasil decidia por tal rumo, a Coréia do Sul optava pelo modelo exportador.
Ninguém na época prestou atenção nos coreanos, um povo perdido em um pequeno e dividido país lá do fim do mundo, de escassos recursos e sob a ameaça constante de ser tragado pelos comunistas. Muito diferente do gigante sul americano no auge de suas pretensões de tornar-se uma grande potência, que às vésperas do milagre econômico tinha uma base industrial poderosa e em franco crescimento, apoiada pela abundância de investimento internacional.
Eram tempos em que nossa produção de automóveis batia recordes ano após ano, enquanto ninguém sequer sabia se na Coréia se fabricavam carros.

Campos não foi ouvido. Deu no que deu.

Roberto Campos também defendeu nos anos sessenta a criação de um banco central independente, bandeira levantada hoje, ironia das ironias, pelo governo do PT.
Sua posição renhida de que a moeda deveria ter um guardião, de novo, se vencedora, teria nos livrado dos dez anos de hiperinflação que destruíram a esperança deste país fechar o século XX como uma economia desenvolvida.

Cada vez que a voz da estupidez falava do trono e obtinha o apoio delirante da plebe ignara, a voz contrária e dissonante era sempre a dele, sem se importar com o impacto de tais posições em sua popularidade e não ligando a mínima para o que era o pensamento da maioria.

Quando os governos militares iniciaram a estatização da economia, com o aplauso da direita nacionalista e da esquerda estatista, Campos foi contra.

Quando criaram a reserva de mercado da informática, com o aplauso da direita nacionalista e da esquerda estatista, Campos foi contra.

Quando lançaram o Plano Cruzado, com o congelamento de preços sendo aclamado nas ruas como a decisão política brasileira mais popular em décadas, Campos foi imediatamente contra.

Não me lembro de uma única posição defendida por Roberto Campos que décadas depois não tivesse sido reconhecida como a melhor opção, referendada até por aqueles que seriam os últimos de quem se esperar tal referendo, como é o caso da política econômica do ministro Palocci, que tem por prioridade o controle do déficit público e a contenção da inflação, prioridades sempre defendidas pelo velho diplomata.

E como os brasileiros se lembram hoje de Roberto Campos?

A maioria não sabe quem foi, quem lembra associará seu nome à direita e aos militares. Alguns se lembrarão de seu apelido - Bob Fields - dado por aqueles que o viam como um agente do imperialismo ianque, idéia tão estúpida que ainda é repetida pelos estúpidos de hoje.

Resta esperar o julgamento da História, que mais cedo ou tarde dirá que Roberto Campos foi um grande brasileiro, que mostrou que este país também poderia ser grande se não tivesse no timão pilotos mais dispostos a guiar o barco para onde cantam as sereias do que para onde apontam os Ulisses.

Roberto de Oliveira Campos foi nosso Ulisses.